Minhas palavras desejam ser encontradas. Desejam ser “corpo” e “meio” de afeto. Querem ser vistas, revistas, lançadas. Querem roçar no indizível, revelando o gosto da cor mais suave e também o cheiro do tato mais amargo.

Primeiro, desejam ser encontradas coladas umas nas outras, desfilando no tapete vermelho e na sua melhor combinação! Rebuscadas, purpurinadas e cheia “dos holofotes”. E se acaso ecoarem de modo dissonante me ponho a fazê-las desfileirarem lado a lado, para serem sempre as primeiras nesta jornada de serem no mundo. Desiludidas pelas adultices, às vezes as palavras podem precisar do reforço de um palco para (re)começarem a ser. Que seja. Que sejam! Assim como aprendi a beleza da criação de rimas aos 9, posso voltar a vibrar com seus encantos outra vez aos 33.

Cuspidas, gritadas, sussurradas, cantadas elas cismam ser encontradas. E agora, cismam em aparecer como força protegida na sua melhor forma: palavra escrita. Essa fala lavrada, arada e eternizada no repouso, no papel. Essa fala lapidada pela oportunidade de ir e vir até finalmente ser cravada pelo gesto que desenha as letras. Gosta de ser fru-fru até que um dia possa vir crua mesmo. Gentilmente pedem licença (ou um “sim”) para ocuparem um espaço no tempo, sem (pre)ocupação.

Pois nascem da vontade de serem o motivo para o riso, (pre)texto para brindes, razão para brincadeiras. Causa para emoção conjunta: (co)moção. Elas querem mesmo encarnar, fazendo arder se o verbo for odioso. Palavra no corpo.

Sim, concordo que nos finalmentes : “O verbo tem que pegar delírio” — é assim que quero que minhas palavras sejam encontradas no auge de sua maturidade. Puras e primas: deliradas! Sem luxúria alguma, peladas. Destravadas, depravadas, delicadas. Fazendo eclodir no mundo outros pedaços deste Manoel de Barros e também de Dionísio, das crianças, dos rascunhos, das sementes, das potências, do meu inconsciente ou do nosso. Maduras e, novamente, cruas.

Que elas possam ser encontradas, sem titubeio, com ou sem floreios. Com intimidade para eu poder intimá-las sempre que minha existência deseje ser traduzida.

Mas hoje, ainda não. Nesta troca entre mente, dedos e coração, a escrita me mostrou que, na realidade, sou eu quem ando reclamando por palavras. Só que elas mesmas só se deixam ser espiadas pelas frestas. É que em seu refúgio ainda exala dor-entorpecente, e por isso só sabe se apresentar camuflada de barroquices.

Tudo bem. Um passo por vez. Que bom que me atrevi a espiar um pouco. Talvez elas gostem de mim e me façam “meio” de sê-las. E enquanto não as sou, vou sendo até que elas me façam (me encontrar) e me (re)façam outra vez.

Educadora e artista multilinguagem. Mestre em Educação (UNESP) e Especialista em Estéticas Tecnológicas (PUC) www.brunapaiva.com

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