Novas coreografias sociais pós quarentena: a sociedade (e a escola) reinventada?

A imagem que viralizou a volta às aulas na França em maio: cada um no seu quadrado

Após o término do período de lockdown ou quarentena, muitas cidades do mundo retornaram com suas atividades e serviços a partir de adaptações nos modos de encontro dos corpos nos espaços.

O distanciamento social, sem dúvida, tem sido a ação mais eficaz para diminuir os riscos de novas transmissões da COVID 19 e de evitar o surgimento de uma “nova onda” de contágios. Ainda sim, vários países se arriscam, reabrindo suas fronteiras, numa aposta de aquecer a sua economia.

Enquanto isso, no Brasil, o retorno ao “novo normal” — termo controverso e perverso — se instaura muito antecipadamente, ampliando o estado de insegurança em relação ao nosso futuro, afinal, a necropolítica (conceito de Mbembe) nunca esteve tão escancarada (vide caso Miguel, João Vitor, João Pedro, Ághata).

Diante da tragédia pré-anunciada por este governo genocída, me mobilizei para lidar com um pedaço desta realidade que já começa a se configurar no Brasil: a organização dos corpos nos espaços sociais. O principal objetivo é ensaiar respostas mais criativas para a a seguinte pergunta: ”Como operacionalizar e reinventar as novas coreografias sociais”?

Ocorre que tal pergunta vem sendo respondida às pressas sob o viés higienista-profilático e atropelando aspectos importantes da vida, sobretudo quando pensamos nos espaços escolares/educativos. Há impactos invisíveis e profundos na área social que também precisam ser considerados e que talvez possam ser amenizados.

Na Bélgica, jovens do Ensino Médio se relacionam pelas “novas medidas” de distanciamento no retorno em 15 de maio: Como lidar com os hormônios em alta numa convivência pelo olhar?
O uso de fitas para demarcar distanciamento social em Cingapura: uma medida protetora ou que apenas deflagra uma prática de distanciamento social já operante nos espaços públicos?
Domino Park em Nova Iorque instaura círculos no gramado para delimitar as distâncias: Não seria também o modo como os guarda-sóis se organizam nas praias? A diferença é que aqui a distância é calculada milimetricamente….
Escola do Ensino Médio da Albânia: Seguir à risca as demarcações ou fluir conforme a situação?
Após pressão popular, são instalados acampamentos temporários para moradores de rua de São Francisco, composto por área de higiene: o olhar para os direitos humanos pode começar a ampliar na pandemia?
The Flamiing Lips em seu show em 10 de Junho: A invenção da “camisinha” para as transas sociais?
Pessoas aguardam em fila para um teste de COVID 19 em um playground em Incheon, Coréia do Sul, em 20 de maio de 2020: Será que temos realmente espaço nas grandes cidades para tanta gente?
O retorno das aulas no Japão em 6 de abril é precedido por um momento de instrução coletivo: A cadeira como símbolo do adestramento escolar agora será reverenciada ou medidas criativas serão inventadas?
Vista aérea do cemitério da Vila Formosa — São Paulo: A morte também está sendo coreografada…

Por que pensar nestas novas coreografias sociais?

Menires, Nuragues, Dolmes entre outros monumentos arquitetônicos presentes no Período Paleolítico e Neolítico já possibilitavam a organização espacial e por isso, podemos dizer que os espaços sempre possibilitaram a construção de coreografias sociais em nossa civilização. Após milênios isso foi se aperfeiçoando e, a partir de normas legisladas ou das normas culturais, nossos corpos foram sendo regulados e domesticados. Assim se faz a operacionalização da vida em coletivo, e quanto mais pessoas, mais endurecidas parecem ser estas normas….

Se antes já havia determinações coreográficas implícitas pelas normatividades culturais, hoje elas vão ganhar estatuto político, das quais as pessoas se vêem impelidas a responder. É como se o disciplinamento dos corpos entrasse em vigor de maneira escancarada, tendo nossos smartphones atrelados neste processo de rastreio — numa espécie de reinvenção do panóptico foucaultiano que, diferente deste, hoje se faz a partir de uma arquitetura rizomática, descentralizada e operada por algorítimos. Em tempo de urgências, é hora para agir de modo a minimizar os prejuízos nas reconfigurações dos afetos que se faz nesta caminhada abismática…

Para quem possui alguma relação com a dança, artes, sociologia, arquitetura ou fotografia (ou para quem simplesmente gosta de olhar para a cidades), a atividade perceptiva destes arranjos coreográficos nos espaços se faz de maneira muito natural. E foi imbuída deste olhar, motivação e tempo, que pude evocar reflexões um tanto paradoxas para estas novas coreografias sociais…

No lado pessimista, sinto que estas novas coreografias podem ameaçar os processos de emancipação e autonomia, uma vez que, no seio de uma pólis que já estava caminhando rumo à decadência, sistematiza os fluxo dos corpos de um modo milimétrico, diminuindo a capacidade de autorregulação que muito se faz através da ocupação dos corpos nos espaços públicos e do intercâmbio cultural e social.

Já pelo viés otimista, entendo que é a partilha deste espaço “comum” carregado de restrições que irá oferecer as oportunidades de revisitação de nossa conduta na esfera macrossocial. Ou seja, sempre há brechas — ainda que na restrição — para operar em prol de uma sociedade mais igualitária e livre.

Em relação às ameaças apontadas pela perspectiva pessimista, creio que só nos resta ficar atentos ao modo como estas novas coreografias sociais estão sendo implementadas. É por este breve e instantâneo estudo etnográfico, que vamos observar e prever possíveis quadros de individualismos e submissões e nos posicionar diante destes novos percursos. E se ocupamos algum espaço de poder, que possamos evitar repetir o erro da coreografia desumanizada…

Já em relação às oportunidades que se abrem pela perspectiva otimista, devemos nos mobilizar para acionar outras capacidades de comunicação uns com os outros — se não mais pelo toque, pelo olhar. Se não mais pelo encontro físico, pelos gestos de generosidade e poesia. Acreditem, pode funcionar!

Quais são estas novas coreografias sociais e o que elas nos dizem?

Uma das ações previstas no Modo Operativo AND — técnica de investigação proposta pela antropóloga e artista Fernanda Eugenio para se promover “composições” pautadas no “comum”— é o “Reparar”. E, reparando, percebi que as novas coreografias sociais estão sendo performadas a partir de partituras geométricas com ritmos nada orgânicos.

Das fitas demarcando o chão aos rodízios de circulação que organizam o acesso aos espaços e das pausas no andar para esperar sua vez na entrada ao supermercado aos desvios ao outro para evitar o toque, pouco a pouco os corpos vão vivenciando — sob a atmosfera do medo — uma ordem e controle acentuado.

Exprimem táticas que artificializam temporariamente os afetos, mas que, se operadas sem cuidado, abrem brechas para a perpetuação de práticas disciplinadoras, narcísicas, e que reforçam a “erosão do Outro” já em voga (Byung Chul Han — “A agonia do Eros”). Se no campo do amor a crise já estava anunciada, que dirá na lida com estranhos. Tomemos cuidado…

“Não é apenas a oferta de outros outros que contribui para a crise no amor, mas a erosão do Outro, que por ora ocorre em todos os âmbitos da vida e caminha cada vez mais de mãos dadas com a narcisificação do si-mesmo. O fato de o outro desaparecer é um processo dramático, mas, fatalmente avança, de modo sorrateiro e pouco perceptível.” Byung-Chul Han, Agonia de Eros (p. 7–8).

A partir do entendimento de que os atos performativos podem ser uma via para se pensar a relação estético-política, Andre Lepecki (Em “Coreopolítica e coreopolícia”) vai apresentar o conceito de coreopolítica, reconhecendo que as ações do corpo no espaço-tempo, ao existirem, acionam aspectos sociais, políticos, econômicos, linguísticos, somáticos, raciais, estéticos, de gênero… sendo o espaço urbano o suporte para este acontecimento coreográfico (político) se materializar.

No contexto pandêmico, observe a composição coreográfica dos corpos que se constrói nos posicionamentos em filas. Seria uma situação “normal” para um tempo “normal”, mas em uma pandemia, ela nos faz questionar quais aspectos psicológicos, sociais, econômicos (e todos os outros levantados por Lepecki) estão por trás deste gesto.

Fila em shopping de Brasília em 27 de Maio: uma organização não orgânica que reforça a erosão do Outro

Ao mesmo tempo, o posicionamento dos corpos em fileiras nos protestos antirracistas também trazem apontamentos sobre os aspectos que fundamentam esta coreografia.

A quantidade de coreografias é variada e, por isso, a decisão acaba sendo meramente individual: qual coreografia escolhemos compor nesta pandemia?

Uma fileira importante foi a das mulheres brancas em ato a favor de George Floyd em Minneapolis: prática antirracista coreografada pelos corpos enfileirados…
Outra organização coreográfica interessante foi a de seis advogados conduzindo a manifestação no Rio de Janeiro em 7 de maio de 2020 para garantir segurança e orientações jurídicas: uma coreografia estratégica para lidar contra a violência policial

Inspirado pelos pensamentos de Hanna Arendt, Lepecki ressalta que cidade e política são coconstitutivas e, por este motivo, a construção de mudanças no plano material (arquiteturas e legislações, por exemplo) depende de um conjunto de ações micropolíticas diretamente no “chão urbano”. É, então, pelo conceito de topocoreopolítica, que o autor sinalizará esta possibilidade de reescrever o espaço ao mesmo tempo que nos reinscrevemos a partir dele, compondo (ou reinventando) uma nova ética dos lugares.

Diferente das filas, nós podemos ter as fileiras… Esta imagem traz a obra do artista Francys Alys (Quando a fé move montanhas, 2002)

Isso significa que, do mesmo modo que o “chão urbano” será modificado pelos “novos limites” institucionalizados pelo Estado, é neste mesmo chão que poderemos imprimir o resultado dos processos de subjetivação alcançados neste isolamento. Por isso, pequenas ações, agora, realmente contam muito. E sustentar as pequenas ações, contam ainda mais. É tempo para as micropolíticas…é tempo para nos responsabilizarmos por cada uma de nossas escolhas, cada um de nossos passos e pausas….

Elevador em Sri Lanka: evitar o contato ao máximo para acelerar a disseminação do vírus
Em Toronto, os vestíveis favorecem a coreografia-solo: uma forma de distanciamento-móvel
No Parque Bannerghatta Biological na Índia, os vestíveis são simples e eficientes guarda-chuvas

Uma nova ética que alimente outras estéticas e produza uma outra política

Refletindo sobre algumas alternativas para operar uma coreografia mais orgânica, percebi que uma primeira aposta, eu diria, é de criar mais vetores de força em direção à algo que nos aproxime da Vida bios. Mas como, se agora com a pandemia a urgência está em preservar a Vida zoè? (Para quem não está familiarizado, os gregos definiam estes dois termos para designar a vida -bios e zoè. Bios seria as formas de vida, isto é, a qualidade atribuída ao estar vivo. Já zoè seria a vida biológica, natural.).

O que priorizar em tempos de pandemia: o respirar ou toda uma potência vinculada ao viver? O dilema pode ser ético. Mas, eu confio que podemos ser criativos e encontrar soluções que garantam, ao mesmo tempo, a sobrevivência do respirar e também a sobrevivência dos afetos. Não nos esqueçamos de que as artes são lugares de potência afetiva que estão sob reinvenção…

Projeto do designer Emanuele Sinnisi Set: reinventar requer projetos e ensaios para o novo tempo
Projeto de Boris Dambly: O show tem que continuar
Cinemas drive-in já se espalham pelo mundo. Na foto, um cinema de Brasília.

Um primeiro exercício, mais individual, é experimentarmos olhar para as coisas de um modo mais holístico/sistêmico e entendermos, por exemplo, que nossas ações no mundo produzem efeitos. Mas para agirmos de acordo com o que acreditamos é preciso estar inteiro.

Neste sentido, é fundamental encontrar espaços (físicos mesmo) para a catarse, a fim de evitar o adestramento progressivo de nossos animal-dionisíaco que ainda quer pulsar. Dançar, gritar, chorar, correr podem ser gestos que produzem alguma liberação.

Ao mesmo tempo, a respiração e a meditação (seja a típica prática sentada, ou mesmo através da atividade da culinária, jardinagem, pintura) pode nos ajudar a estar presentes para praticarmos, depois, o nosso olhar/o “reparar”. Tudo isso nos ajuda a perceber as situações de encarceramentos e a de garantir que as forças volitivas de nossos corpo se preservem. Afinal, é essencial não esquecer de nossa liberdade, ainda que aprisionados.

Em seguida, para aqueles que possuem algum tipo de empreendimento ou a responsabilidade por gerir algum espaço, é importante que compreender que alguns processos vão requerer investimentos (financeiros ou de criatividade) para evitar o reforço deste estresse ao qual estamos todos imersos. Criar medidas que evitem neglicenciar a vida bios é nossa responsabilidade e, por isso, também é importante evitar a definição de novas normatividades reguladoras às pressas.

Separei algumas iniciativas que se fazem no segmento alimentício que, além de cumprir as medidas de distanciamento social, representam, em diferentes graus, possibilidades lúdico-afetivas. Talvez nenhuma delas sirva, de fato, pra gente. Mas ampliar nosso repertório pode permitir que encontremos uma iniciativa mais sensível ao momento que estamos vivendo.

Restaurante na Suécia “Table for One”
Restaurante na Tailândia aposta em Pandas para ocuparem os assentos
O projeto de design Christopher Gernigon para restaurantes
Em Taiwan, os alunos fazem suas refeições dentro da sala de aula.
O restaurante Bar-BQ Plaza, em Bangcoc, na Tailândia ocupa os assentos com seu mascote em papelão
Em Sydney, na Austrália, o restaurante aposta em placas de papelão com ruídos de pessoas
Restaurante Mediamatic em Amsterdã, Holanda, cria cabines para garantir o isolamento
O restaurante e bar Fish Tales, em Ocean City, Maryland, oferecem câmaras de ar infláveis com rodas
Café Rothe em Schwerin, na Alemanha

Um olhar para as escolas

O retorno às aulas é uma destas situações que exigem um protocolo rígido e uma operacionalização bastante sincronizada (que, por sua vez, pode favorecer processos de desenvolvimento de coletividade entre os organizadores), de modo que este espaço não se torne mais um ambiente de propagação do vírus. Mas como?

Lembremos de que a escola é um desses lugares-pólis composto por uma arquitetura extremamente rígida também composta por agentes responsáveis (figuras de autoridade) em coreografar os corpos (ou discipliná-los), obedecendo os preceitos da “Lei”. Parar, circular, fazer filas e permanecer sentado são posicionamentos que já ocorrem a depender do contexto. Pós-quarentena, isso será algo ainda mais enaltecido….

Na Alemanha, em 21 de abril, houve um preparo do espaço: menos gente e mais distância (imagem 1 e 2)
Em Israel, na entrada da escola, as crianças são orientadas a manter uma distância de um braço entre si
Entrada na escola na Dinamarca marcada por uma fila de corpos distantes
Crianças da França em seu retorno à aula em 14 de maio.
No Ceará, na cidade de Coreaú, as escolas entregam máscaras com viseiras.

Observemos, assim como no caso dos restaurantes, as novas normatividades e as novas coreografias sociais que estão sendo geradas nos outros países para termos mais opções de escolha e possamos nos antecipar minimamente para o que está por vir, julgando o que pode vir a servir e o que pode não vir a servir nosso contexto.

Experimentemos assumir os fatos, problematizar, investigar alternativas e estratégias de orquestrar medidas que possam tanto minimizar riscos para a saúde (Vida zoè) e como produzir algum tipo de sociabilidade ao longo deste processo de retorno (Vida bios).

Nos cuidemos.

Medidas como o ensino Ead ou homeschooling não é de todo ruim se olharmos por uma perspectiva macro. Mas são para quem? Serão implementadas junto com quais outras medidas? É aí que habita o problema. Medidas que fortalecem as desigualdades coloniais não nos servem se no pacote não vier junto outras medidas. Não no Brasil.

Contudo, isso não significa que devamos ficar alheios aos fenômenos tecnológicos. A pandemia trouxe, talvez, uma oportunidade de ruptura e experimentação. As redes sociais podem vir a somar de alguma maneira e, como aliadas, podem enfatizar alguns processos educativos intencionados pelos educadores — pois se este espaço (virtual) não for ocupado, ele continuará sendo pelos tik toks da vida…

Na Noruega, o retorno das aulas envolve salas de aula comportando no máximo 15 alunos
No Japão, as salas possuem ventilação completa e há restrição das atividades em grupos
Na Coreia do Sul, proteção individual transparente em cada carteira escolar.
Crianças em dupla proteção na China: Face shield e Máscaras cirúrgicas

Um outro currículo

Se pensarmos na maneira como a maior parte dos currículos das escolas brasileiras foram desenhados, logo perceberemos que as oportunidades de um desenvolvimento integral são baixas. E isso não é uma escolha aleatória (e nem sem partido).

Também não podemos negar de que há uma quantidade elevada de saberes invisíveis (“currículo oculto”) atravessando os nossos corpos físicos no cotidiano escolar ao longo de toda uma formação escolar e cristalizando hábitos: o modo como são organizados os espaços, os ritmos e as decisões. Por isso, enquanto educadores, lembremos outra vez de que nenhum de nossos gestos são neutros (nem pré ou muito menos pós pandemia)

Imagem de uma escola da França

Lembremos de que o fluxo dos corpos na escola já está pré-coreografado pela rigidez dos espaços arquitetônicos e seus ritmos, muito provavelmente pela dificuldade que existe em gerir esta elevada quantidade de pessoas. Como fazer agora para não fortalecer ainda mais os sistemas de vigilância sofisticados e policiamento?

Temos duas alternativas para evitar o desastre: direcionar nossa energia nos mobilizando contra as reaberturas ou direcionar nossa energia nos mobilizando na concepção das estratégias pós abertura. Ambas são úteis e necessárias e precisam estar sincronizadas. E nenhum direcionamento será leve ou ausente de resistência. Novos tempos, novos currículos, novas operacionalizações…

Não podemos nos esquecer que foi devido à crise de tuberculose que, em 1904, surgia nas proximidades de Berlim a primeira escola ao ar livre do mundo que, depois, se espalharia por outros cantos da Europa:

Escola ao ar livre na Holanda em 1918

Também não podemos nos esquecer de que as crianças estarão afetadas por todo este período de isolamento e nos preparar quanto a isso também é essencial. Por este motivo, que o Centro de Estudos e Pesquisas em Emergências e Desastres em Saúde, da Fundação Oswaldo Cruz (Cepedes/Fiocruz) Fiocruz preparou a cartilha “Crianças na pandemia covid-19” e este é um material que apresenta alguns dos processos que as crianças vivenciaram durante o processo de isolamento. É um material que nos orienta e também nos sensibiliza enquanto educadores.

Seja como for, as coisas precisam caminhar de um modo diferente. Senão, todo este tempo isolado, todos os estresses vivenciados, toda a crise econômica, todas as mortes serão em vão…

A aposta na emoção

Para além da aposta na medição da temperatura corporal na entrada; da inserção de túneis de desinfecção; do obrigatório uso de viseiras; da desinfecção das mãos com álcool em gel; da proibição de abraços e aproximações; da alimentação na própria sala de aula; da organização de entrada e saída; do distanciamento de 1,5m; de que cada aluno tenha seu próprio recipiente de água; da desinfecção das salas após o término do turno; de professores usando protetores faciais; do rodízio dos alunos nas aulas; da abertura das janelas — ainda é preciso olhar para nossas ações educativas que estão por vir.

Se eu fosse apostar em um segmento para as minhas ações educativas, eu iria evocar práticas que ampliem o movimento interno e coletivizado — emoção e comoção — pois parecem ser uma via interessante nestes períodos de transição pelo fato de serem seguros e promoverem aquilo que estamos abdicados de vivenciar: nos mover! (Emoção é uma palavra que tem o movimento -“moção”- em sua etimologia).

Neste sentido, os trabalhos da artista Lygia Clark, os trabalhos de educação somática ou toda essa linha de estudos do imaginário vêm trazendo possibilidades concretas e profundas de conexão interna, a ponto de eu acreditar que também sejam caminhos para o desenvolvimento espiritual, uma vez que promovem a expansão de nossa capacidade de percepção sutil e deixam-nos suprassenssíveis para nos integrarmos em profundidade com a realidade ao nosso redor. Religare

É chegada a hora de olhar nos olhos, tocar o próprio corpo, ouvir e tocar música. Cantar. Dançar. É a hora e a vez das artes serem a força motriz de todos os currículos: da matemática à educação física. E de nós, professores, sermos bons ouvintes e espectadores a contemplar o que se apresentar. Oferecer boas referências e deixar as crianças e jovens conceberem seus projetos pessoais e coletivos talvez seja nosso papel. Há bons exemplos de escolas que já articulam conteúdos dessa maneira.

Talvez seja utópica essa perspectiva diante de nossa educação engendrada pelos anseios do mercado. Então, que a escola vire (para o mundo) um “lugar para os pais poderem deixar seus filhos e irem trabalhar”. Mas não para nós…

Se nosso cotidiano for construído diariamente nesse intuito de cuidar da coletividade é pelo acumulo de ações que faremos a diferença. Porque ainda que os corpos não se toquem, que eles possam continuar se afetando!

Na China o uso de chapéus com bexigas enaltecem, simbolicamente e ludicamente, a provisoriedade do distanciamento. De modo criativo, também fazem uma homenagem ao Imperador Shenzong da Dinastia Song, que usava um chapéu semelhante.

Outras referências para seguirmos acompanhando:

24.06.2020 — bbc news — Coronavírus: as estratégias e desafios dos países que estão reabrindo suas escolas

18.06.2020 — Crescer — De álcool em gel à máscara: como está sendo a abertura das escolas particulares no Brasil

17.06.2020 — El País — Colocar 20 crianças numa sala de aula implica em 808 contatos cruzados em dois dias, alerta universidade

16.06.2020 — Folha de São Paulo — Escolas particulares querem volta às aulas antes das públicas

13.06.2020 — Itaú Cultural — As emoções da cidade: Marcia Alves sobre casa, urbanismo e arte na pandemia

06.06.2020- revista Educação — Como o mundo, professores nunca mais serão mais os mesmos após pandemia

01.06.2020 — Porvir — Escolas pós-coronavírus: como alunos e professores voltaram às aulas na Nova Zelândia

30.05.2020 — Estadão — Retomada de aulas presenciais envolve desafios que vão além do distanciamento físico

26.05.2020— Somos Educação — Previsões para a educação pós-pandemia

21.05.2020 —revista Educação — Covid e a Escola: alguns vitrais se quebraram; favor não substituí-los

21.05.2020 — Yahoo Notícias — ´Conteudismo´sem considerar pandemia é violência à comunidade escolar, diz Conanda

15.05.2020 — Continuity in Education- Empowering Children Throught School Re-Entry Activities After the COVID-19 Pandemic

13.05.2020 Todos pela Educação- Volta às aulas no contexto da COVID-10: É preciso escutar os professores

MAIO 2020Para um retorno à escola e à creche que respeite os direitos fundamentais de crianças, famílias e educadores

MAIO.2020 — Todos pela Educação — O retorno às aulas presenciais no contexto da pandemia da COVID-19

16.04.2020— The Conversation — What’s next for schools after coronavirus? Here are 5 big issues and opportunities

12.04.2020— El País — Francesco Tonucci: “Não percamos esse tempo precioso com lição de casa”

Educadora e artista multilinguagem. Mestre em Educação (UNESP) e Especialista em Estéticas Tecnológicas (PUC) www.brunapaiva.com

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